Luiz Augusto P. Arruda “Explicando Política”


                                                                                                                    “Há muitos milênios, antes mesmo que a roda tivesse sido inventada, a vida era uma pancadaria generalizada, pauladas, pedradas, cada um por si, cada um contra todos.

Um famoso pensador chamado Hobbes disse que era um estado de “guerra de todos contra todos”.
Não havia leis. As leis servem para proibir aquilo que não pode ser feito. Assim, cada um fazia o que queria. Roubar não era crime porque não havia uma lei que dissesse “é proibido roubar”. Matar não era crime porque não havia uma lei que dissesse “é proibido matar”. E não havia pessoas encarregadas de fazer cumprir a lei: juízes, polícia. Quem tivesse o porrete maior, mandava.

É fácil entender. Imaginem uma coisa doida: um jogo de futebol em que não haja regras e nem haja um juiz que apite as faltas. Tudo é permitido. Tapas, murros, rasteiras, xingamentos, levar a bola com a mão, mudar de time no meio do jogo. Ao final de cada jogo o número de mortos e feridos é grande. Os amantes de futebol queriam continuar a jogar futebol, mas sem medo da violência. Eles se reuniram e disseram: “Não é possível continuar assim. Vamos fazer regras para o futebol. E vamos ter, no campo, um homem que faça com que as regras sejam cumpridas.” E assim fizeram. E o futebol se transformou num jogo civilizado (às vezes…).

Pois os homens daqueles tempos chegaram à mesma conclusão. Não valia a pena continuar a viver daquele jeito. Eles se reuniram numa grande assembléia e chegaram a um acordo: “Só há uma solução. É preciso que cada um deixe de fazer o que lhe dá na telha. Precisamos de leis. Mas, para ter leis, precisamos de um homem que faça as leis. E não só isso: um homem que tenha o poder para punir todos aqueles que quebrarem a lei.”

E os homens então, abriram mão das suas pequenas vontades individuais para poder viver uns com os outros em paz. E para que houvesse um homem que fizesse as leis e punisse os criminosos eles escolheram um que seria o seu rei, ele e os seus descendentes. O rei teria que ser aquela pessoa que reinaria para a paz dos homens comuns, os seus súditos. O rei teria de ser uma pessoa que, ao mesmo tempo, combinasse sabedoria e força.

Sabedoria para fazer as coisas certas. E força para punir os malfeitores. No futebol, por exemplo, os malfeitores são aqueles que quebram as regras, aqueles que, pensando que o juiz está distraído, dão rasteiras e tentam fazer gols com a mão. Se o juiz ficar desatento e não apitar as faltas a partida de futebol vira pancadaria.

Mas os homens que elegeram o rei eram ruins em psicologia. É sempre assim: em período de eleição todos os candidatos se apresentam como honestos, puros, pessoas que só desejam o bem do povo. Mas o povo não conhece psicologia. Acredita naquilo que lhe é dito. Não sabe que essas falas dos candidatos são como a isca no anzol do pescador. O seu objetivo é apenas “fisgar” o voto do povo. E esses puros, uma vez no poder, passam por horríveis transformações. Belos, transformam-se em Feras.

Aconteceu assim com os reis, tão bonitos, tão honestos, antes de terem a coroa na cabeça e a espada na mão. Mas uma vez no poder transformaram-se em Tiranos.

Tiranos são aqueles que, esquecidos do povo, impõem a sua vontade sobre ele. Assim os reis esqueceram-se do povo e passaram a pensar só neles mesmos. Se eles eram aqueles que fazem as leis, e se eles eram aqueles que tinham a espada na mão, não havia ninguém que os punisse. Eles cometiam suas maldades protegidos pela impunidade. Tendo poder para fazer as leis, eles as fizeram só em seu benefício, leis que obrigavam o povo a pagar impostos pesados. Imposto é um dinheiro que o povo tem de pagar ao governo para administrar a cidade.

O povo ficou mais pobre, mais sofrido. Aprendam isso: as pessoas mais cheias de boas intenções, quando têm o poder e o dinheiro na mão, esquecem-se delas. Ficam deslumbradas com o poder e passam a pensar só nelas mesmas. O poder e o dinheiro corrompem.
Foi assim durante muitos séculos, os reis reinando. Até que o povo perdeu as esperanças. Os reis, que haviam sido objetos da sua admiração, tornaram-se objetos do seu desprezo. Seu perfume se transformou em fedor. Não, os reis jamais pensariam no bem do povo.

Aí o povo pensou: “Não fomos nós que escolhemos o rei? Se ele está no trono é só porque nós queremos! Ele não está no trono pela vontade dos deuses! Se fomos nós os que o colocamos no trono, temos o direito de tirá-lo de lá”.
O povo então se enfureceu, saiu às ruas, pegou em armas, fez revoluções e tirou o Rei do trono.

Voltou-se então ao estado original: não havia quem ditasse leis e as fizesse cumprir, para a paz do povo. Mas o povo havia aprendido uma lição: poder por toda a vida, como o que era dado aos reis, só produz tirania e corrupção. É muito perigoso dar poder absoluto a uma pessoa só.

“O poder pertence ao povo”: essa foi a regra fundamental do jogo. Com justiça absoluta. Se você não sabe, essa é a essência da democracia. A palavra democracia vem da junção de duas palavras gregas: “demos”, que quer dizer “povo” e “kratein” que quer dizer “governar”. Governo do povo e para o povo: haverá coisa mais bonita?

Acontece que as coisas são mais fáceis na teoria do que na prática. É fácil sonhar com o vôo. É difícil fazer um avião. É fácil sonhar com o ideal democrático. É muito difícil transformá-lo numa máquina que funcione.
Como criar um sistema político em que seja o povo que exercita o poder?

A solução encontrada se baseava num pressuposto filosófico: os cidadãos são seres racionais. Eles sabem o que é bom para eles. Assim, tratava-se de escolher um cidadão, dentre os muitos, que representasse os pensamentos e desejos gerais.

Essa pessoa assim escolhida se tornaria, então, “representante” de todos aqueles que haviam votado nela. Pois é isso que é o voto: abro mão do meu direito de exercer diretamente o meu poder e o transfiro para outro, em quem confio. Esse outro será o meu “representante”. Não só meu, mas de todas as pessoas que tiverem votado nele. Assim, o voto seria o exercício racional da vontade do povo que, conhecedor das alternativas que se abrem, opta por aquela que lhe parece mais sábia. O voto seria, ao mesmo tempo, um exercício de poder e de sabedoria.

Democracia só faz sentido com um povo sábio. A partir disso formam-se os partidos.

Partido… Partido é o conjunto daqueles que, juntos, querem que o barco navegue numa determinada direção. Há partidos que querem que o barco continue em frente. Outros preferem a direita. E há aqueles que querem que o barco navegue para a esquerda. E há ainda uns outros que querem que o barco fique dando voltas ou andando para trás…
E foi assim que se formou a democracia, governo do povo pelo povo, povo inteligente, que sabe o que quer, que, por meio do voto escolhe os seus representantes que, em seu nome vão exercer o poder…

Tão bonita, a idéia da democracia! Melhor não há. Os cidadãos, educados, conscientes das suas necessidades, no exercício da sua liberdade, sem compulsões, sem enganos, escolhem por meio do voto aqueles que serão os seus representantes.
E os representantes do povo, dominados por um único ideal: trabalhar para o bem comum. No ato de se aceitarem como representantes do povo eles deixam de lado a sua vontade, os seus interesses privados, particulares. Tornaram-se depositários da vontade do povo. Quando pensam e agem não pensam e agem de acordo com os seus interesses. Apenas uma pergunta informa o seu pensar e o seu agir: “É do interesse do povo?”

É assim que eu quero. É assim que todo mundo quer.”
(texto adaptado)

Luiz Augusto Pesce de Arruda
  1. #1 por Ricardo Buso - 24 de fevereiro de 2010 às 19:59

    Prefeito / Sr. Arruda:

    Gostei muito do texto. Providencial!

    É preciso despertar na população o interesse pela política, em seu sentido primitivo: organização do povo para os interesses do povo.

    No dia em que aprendermos os benefícios da efetiva participação popular na política, sem os preconceitos e menosprezos de hoje, certamente saberemos cobrar com mais dignidade, e daí nasce o respeito na condução do negócio público.

    Quanto aos representantes eleitos, é preciso “separar o joio do trigo” e reconhecer os capacitados à representação. Faz parte desse respeito público.

    Destaco um trecho do texto ao qual me detive com mais atenção: “É muito perigoso dar poder absoluto a uma pessoa só.” Desse perigo a democracia sabiamente já tenta nos resguardar, com a instituição do Poder Legislativo (na esfera municipal a Câmara dos Vereadores), uma Casa representativa do povo para também fiscalizar o representante executivo desse povo. Daí a importancia da consciência na urna.

    Por fim, proponho a reflexão quanto a importância de se valorizar a Democracia, algo que nosso país bem conhece as dificuldades de se viver fora dela.

    Felicito pela iniciativa da publicação do empolgante texto e peço desculpas por tê-lo comentado tanto.

    Saudações,

  2. #2 por Pedrinho Eliseu - 24 de fevereiro de 2010 às 20:07

    Ricardo Buso :

    Prefeito / Sr. Arruda:

    Gostei muito do texto. Providencial!

    É preciso despertar na população o interesse pela política, em seu sentido primitivo: organização do povo para os interesses do povo.

    No dia em que aprendermos os benefícios da efetiva participação popular na política, sem os preconceitos e menosprezos de hoje, certamente saberemos cobrar com mais dignidade, e daí nasce o respeito na condução do negócio público.

    Quanto aos representantes eleitos, é preciso “separar o joio do trigo” e reconhecer os capacitados à representação. Faz parte desse respeito público.

    Destaco um trecho do texto ao qual me detive com mais atenção: “É muito perigoso dar poder absoluto a uma pessoa só.” Desse perigo a democracia sabiamente já tenta nos resguardar, com a instituição do Poder Legislativo (na esfera municipal a Câmara dos Vereadores), uma Casa representativa do povo para também fiscalizar o representante executivo desse povo. Daí a importancia da consciência na urna.

    Por fim, proponho a reflexão quanto a importância de se valorizar a Democracia, algo que nosso país bem conhece as dificuldades de se viver fora dela.

    Felicito pela iniciativa da publicação do empolgante texto e peço desculpas por tê-lo comentado tanto.

    Saudações,

    Caro Ricardo , lendo seu comentário senti necessidade de publicá-lo em um espaço maior para dar a ele maior visibilidade . Espero que não se incomode . Nem preciso dizer que gostei muito . Forte abraço !

  3. #3 por Ricardo Buso - 24 de fevereiro de 2010 às 20:12

    Me incomodar? De forma alguma! Sinto-me lisonjeado.

    Muito obrigado,

  4. #4 por Pedrinho Eliseu - 24 de fevereiro de 2010 às 22:00

    Ricardo Buso :

    Me incomodar? De forma alguma! Sinto-me lisonjeado.

    Muito obrigado,

    Obrigado você pela participação . Forte abraço!

  5. #5 por geraldo zanibone - 24 de fevereiro de 2010 às 22:53

    Prezado amigo Pedrinho, enfiando minha colher de pau, na teoria concordo com tudo o que o Sr Luis colocou, esplanou o que é,e como deve funcionar a Politica, mas na pratica não funciona por causa de, aconchavos politicos, é dando que se recebe, interesses partidarios, mensalões, nomeações de parentes e amigos, gastos absurdos e abusivos, viagens onde até o gato vai de 1º clase, e alem de assistir a tudo isso, é o nosso dinheiro que vai para a farra do boi, onde o aposentado que ganha o misero salário, se espreme para sobreviver, isso precisa mudar, por isso é importante colocar esses temas no blog, para abrir os olhos do eleitor.um abraço para o Sr Luis, para voçe Pedrinho, Gabi e as crianças que Deus os guarde, par med joâ 10=10

  6. #6 por Pedrinho Eliseu - 24 de fevereiro de 2010 às 23:04

    geraldo zanibone :

    Prezado amigo Pedrinho, enfiando minha colher de pau, na teoria concordo com tudo o que o Sr Luis colocou, esplanou o que é,e como deve funcionar a Politica, mas na pratica não funciona por causa de, aconchavos politicos, é dando que se recebe, interesses partidarios, mensalões, nomeações de parentes e amigos, gastos absurdos e abusivos, viagens onde até o gato vai de 1º clase, e alem de assistir a tudo isso, é o nosso dinheiro que vai para a farra do boi, onde o aposentado que ganha o misero salário, se espreme para sobreviver, isso precisa mudar, por isso é importante colocar esses temas no blog, para abrir os olhos do eleitor.um abraço para o Sr Luis, para voçe Pedrinho, Gabi e as crianças que Deus os guarde, par med joâ 10=10

    Grande Geraldo , assim como você , o Luis é um grande colaborador aqui do blog e em nome dele eu agradeço sua mensagem . Forte abraço .

  7. #7 por Luiz Augusto Pesce de Arruda - 24 de fevereiro de 2010 às 23:22

    Exmo. Sr. Prefeito e leitores do blog,

    Para efeito de créditos literários a quem devido, o texto que postei é uma compilação do conferencista Luciano Pires, baseado no livro “Explicando política para crianças” de uma série de textos de Rubem Alves.
    Apenas encurtei-o um tanto, mantendo contudo a idéia básica, para caber no blog e, desse modo, poder compartilhá-lo com todos os meus amigos.
    Arruda

  8. #8 por Pedrinho Eliseu - 24 de fevereiro de 2010 às 23:28

    Luiz Augusto Pesce de Arruda :

    Exmo. Sr. Prefeito e leitores do blog,

    Para efeito de créditos literários a quem devido, o texto que postei é uma compilação do conferencista Luciano Pires, baseado no livro “Explicando política para crianças” de uma série de textos de Rubem Alves.
    Apenas encurtei-o um tanto, mantendo contudo a idéia básica, para caber no blog e, desse modo, poder compartilhá-lo com todos os meus amigos.
    Arruda

    Desculpe o lapso meu amigo , obrigado pelo envio e forte abraço .

(não será divulgado)
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