Em certo ano terrível de peste entre os animais, o leão, mais apreensivo, consultou um macaco de barbas brancas.
- Esta peste é um castigo do céu – respondeu o macaco – e o remédio é aplacarmos a cólera divina sacrificando aos deuses um de nós.
- Qual? – perguntou o leão.
- O mais carregado de crimes.
O leão fechou os olhos, concentrou-se e, depois duma pausa, disse aos súditos reunidos em redor:
- Amigos! É fora de dúvida que quem deve sacrificar-se sou eu. Cometi grandes crimes, matei centenas de veados, devorei inúmeras ovelhas e até vários pastores. Ofereço-me, pois, para o acrifício necessário ao bem comum.
A raposa adiantou-se e disse:
- Acho conveniente ouvir a confissão das outras feras. Porque, para mim, nada do que Vossa Majestade alegou constitui crime. São coisas que até que honram o nosso virtuosíssimo rei Leão.
Grandes aplausos abafaram as últimas palavras da bajuladora e o leão foi posto de lado como impróprio para o sacrifício.
Apresentou-se em seguida o tigre e repete-se a cena. Acusa-se de mil crimes, mas a raposa mostra que também ele era um anjo de inocência.
E o mesmo aconteceu com todas as outras feras.
Nisto chega a vez do burro. Adianta-se o pobre animal e diz:
- A consciência só me acusa de haver comido uma folha de couve da horta do senhor vigário.
Os animais entreolharam-se. Era muito sério aquilo. A raposa toma a palavra:
- Eis amigos, o grande criminoso! Tão horrível o que ele nos conta, que é inútil prosseguirmos na investigação. A vítima a sacrificar-se aos deuses não pode ser outra porque não pode haver crime maior do que furtar a sacratíssima couve do senhor vigário.
Toda a bicharada concordou e o triste burro foi unanimamente eleito para o sacrifício.
Moral da Estória:
Aos poderosos, tudo se desculpa…
Aos miseráveis, nada se perdoa.
Monteiro Lobato
Extraído do site Universo das Fábulas

#1 por Ricardo Buso - 18 de janeiro de 2010 às 19:24
Prefeito:
Sendo Obra de Monteiro Lobato, beleza já é pressuposto. Feliz publicação!
Em minha modesta opinião, é possível traçar um paralelo ao texto com a realidade da “Lei de Responsabilidade Fiscal”, inicialmente muito bem concebida.
A prática nos passa a impressão que aqueles poderosos Administradores Públicos que a infringem buscam a desculpa pelo ato através da longevidade do Processo Judicial. E a opinião majoritária, infelizmente, é que podem acabar perdoados.
Por outro lado, ao honesto contribuinte, como resustado do desrespeito alheio, resta o sacrifício, suportado através da precariedade dos serviços públicos oferecidos.
Finalizo com um sincero pedido de desculpas por politizar até mesmo o belo Conto publicado. Não resistí.
Saudações,
#2 por Pedrinho Eliseu - 18 de janeiro de 2010 às 21:49
Primeiramente boa noite e em segundo , realmente , quando falamos de Monteiro Lobato , beleza já é pressuposto . Gostei do paralelo que você traçou , interessante e pertinente ao post . Não tem que pedir desculpas pois a análise tem que ser feita a partir da sua visão sobre o texto publicado . Forte abraço e obrigado pela participação .
#3 por Marcos Soave - 19 de janeiro de 2010 às 10:18
Bom dia Pedrinho!
Gostei, fala bem a atual realidade do mundo, que vivemos. Grande abraço
Marcos Soave
#4 por Pedrinho Eliseu - 19 de janeiro de 2010 às 18:33
Forte abraço Marcos , obrigado pelo comentário .
#5 por Lê - 19 de janeiro de 2010 às 20:29
Oi Pedrinho, voltei!!!
Qualquer hora você irá bloquear o meu nome no seu blog.(espero que não aconteça??)
Faz dias que estou pensando o que escrever a respeito do conto de Monteiro Lobato, a pesar que não tenho muitas palavras para falar sobre ele Monteiro Lobato, um escrito e tanto…, a respeito de seus contos , fábulas também nota 10, uso direto na área da educação.
Sabe Pedrinho gostei muito da colocação do Ricardo Buso, tocou na ferida como se diz, mas também colocaria sobre os “poderosos” que não se preocupam com o salário mínimo, com o aposentado, com o funcionalismo, com o desempregado e tantos outros fatores.
Como é de costume a corda acaba estourando para o mais fraco, para as pessoas honestas que lutam para conseguir pagar as contas, ter uma vida tranquila.
Às vezes chego até ficar chateada, triste com tanto desonestidade neste mundo, com tanta sujeira, mais o que me conforta é Deus, pois ninguém escapará da justiça divina.
Mais uma vez parabéns pela escolha do texto, do conto, ele encaixou-se muito bem com o nosso dia dia. Espero ter me expressado. Abs,Lê
PS: Olha, não vai me bloquear…
#6 por Pedrinho Eliseu - 19 de janeiro de 2010 às 22:45
Isso nunca vai acontecer Lê , nem com você nem com ninguém . Tenha certeza disso . Com relação ao seu comentário sobre o conto do Monteiro Lobato , realmente a corda sempre acaba arrebentando para o lado do mais fraco . Isso é uma realidade , mas nós temos o poder de modificá-la , não é mesmo . Que venha a justiça. Forte abraço prá você .
#7 por Dalva e Raffa - 20 de janeiro de 2010 às 21:54
Esse texto mostra que infelizmente a corda sempre arrebenta no lado mais fraco. Mesmo estando certo o lado honesto da história é condenado. Mas isso pode ser mudado, pois temos que expor a verdadeira situação e mostrar que estamos certos mesmo com tanta gente dizendo o contrário. O importante é não desistir e temos a certeza que Deus está vendo nossas atitudes, pois um dia a verdade sempre aparece… E então seremos os maiores vencedores. Um grande abraço, fique com Deus Pedrinho.
De seus amigos,
Dalva e Raffa.
#8 por Pedrinho Eliseu - 20 de janeiro de 2010 às 22:08
Fico muito feliz em receber uma mensagem enviada em conjunto , pelos meus grandes amigos Dalva e Raffa . Muito obrigado pelo comentário e forte abraço para vocês . Força , fé e coragem !